sexta-feira, 16 de Maio de 2008

Um morto, apenas

Hoje comecei o dia com um morto. Já tínhamos deixado os miúdos no colégio, íamos no carro a ouvir o Tubo de Ensaio, do Bruno Nogueira, na TSF. E, de repente, lá estava. Um carro da polícia de intervenção, muita gente, umas fitas a isolar um espaço e, nesse espaço, estendido no chão, um morto. E, em redor, muitas pessoas. Umas com sobrolho carregado, outras rindo alegremente, como se assistissem apenas a mais um episódio do C.S.I.
Mas o que mais me perturbou foi o modo displicente como a polícia cobriu o morto. Um daqueles lençóis azuis tapava-lhe a cara, mas uma poça de sangue que lhe saía da cabeça estava ali, à vista de todos. E os fulanos conversavam alegremente, ao lado do falecido, sem notar nos olhos grandes de um miúdo, fixos no corpo pousado no chão, imóveis no vermelho que manchava a calçada portuguesa.
Entre o espanto do menino e os sorrisos de polícias e transeuntes pode medir-se a distância entre a ingenuidade da infância e a indiferença do mundo adulto. Ali estava um homem sem vida. O menino viu isso. Os outros não.

11 comentários:

Lúcia disse...

Texto sóbrio e lúcido perannte assunto tão cruel...porque a morte é sempre cruel.

Luís V disse...

Esse menino perdeu naquele exacto momento a sua inocência, infelizmente...

Anónimo disse...

Prosa maravilhosa. Nó na garganta ao (re)ver a cara do miúdo.

. disse...

Fiquei sem palavras. Eu sei quase sempre o que dizer, nem que não diga nada de jeito. Luz de Estrelas

rita disse...

Quem me dera escrever assim.

Inex disse...

Almirante Reis? Também ouvi relatos de uma pessoa chocada... e parece que ainda lá estão as marcas para as pessoas se lembrarem...

caosnacozinha disse...

Incrível, o texto. Incrível, a diferença, o que deixamos de ver quando crescemos. O que aprendemos a não ver ou desaprendemos de ver. Obrigada pela chamada de atenção.

*
Mariana

A Biskoito disse...

Certas profissões tornam as pessoas frias, indiferentes a certas situações. Ás vezes tem mesmo de ser, mas é chocante como se mostram insensíveis até na presença de uma criança.

Fátima Tomé disse...

Que coincidência macabra! Nesse mesmo dia de manhã no meu bairro, mais precisamente no cruzamento da Rua Augusto Machado com a Almirante Reis, também aconteceu algo semelhante, mas não me aproximei...

SMS disse...

Não é coincidência! Foi mesmo na Almirante Reis que eu vi o dito morto.

sónia disse...

É apenas mais uma amostra da falta de respeito e sensibilidade de muitos "humanos" que deambulam neste mundo... :(